O VALOR DA BASE DE DADOS E DO CONHECIMENTO DO PASSADO
(por Paulo Sérgio de Castro Oliveira, especial para a FGX em 18/06/2008)
Também no xadrez, a informática não veio para substituir os livros, e sim para otimizar o seu estudo. Ganha-se muito tempo com o uso dela, mas nada substitui o manipular de um bom livro, com o olhar atento nos comentários dos mestres. Uma só frase bem colocada, pode valer anos de estudo.
É muito cansativo pesquisar variantes ou partidas citadas num livro que estamos estudando, em outros livros. E na maioria dos casos nem dispomos das fontes necessárias. Conheço um enxadrista, que teve que ir ampliando a sua casa para os fundos, para que nela coubessem novos livros adquiridos.
Lembro-me do Rochinha, quando se preparou aqui em Rio Grande para o último torneio forte que jogou. Pediu-me uns 10 ou 15 Informadores emprestados. 'Podem ser só os últimos', frizou. Em outra ocasião, ficou olhando, entre maravilhado e assustado, a tela do computador em que eu mexia. Não recordo exatamente o que disse então, mas foi algo assim: 'Como isto ficou'!
E de Karpov, que chegou onde chegou, sem usar os amigos eletrônicos! E ainda está lá, na elite, podem crer... Parece-me, às vezes, um urso pachorrento de estatura médio-baixa. É quando engorda e pára temporariamente de jogar, meio que hibernando. Fica participando de eventos sociais ou visitando o Kasparov na cadeia, ou vem escondido comprar um terreno no Brasil. Aí, acho que ouve algum incauto resmungar que 'Karpov está velho'. Fica brabo, emagrece e treina um pouco, e ganha invicto um torneio de altíssima categoria! 'Quem foi Rei, sempre será Magestade'!
Para complementar o uso dos livros de xadrez, nada existe como um bom banco de dados. Não tenho pesquisado mais isto, mas creio que os melhores ainda são os da ChessBase e o do Chess Assistant, ambos já com mais de 3 milhões de partidas, registradas desde 1560 (Ruy Lopez!) até os dias de hoje. Porém estes bancos são pagos e não custam barato, quando adquiridos legalmente. A Inglaterra tinha uma 'FatBase', há anos atrás, que era mais em conta. A excelnte 'Twic', de Mark Crowter (weekinchess.com), certa vez lançou uma versão paga, por bom preço. Dessas bases socializadas, temos o notável trabalho de Adaucto Wanderley da Nóbrega, com sua 'Brasil Base'. Deveríamos todos colaborar para eliminar as lacunas da 'Brasil Base', enviando as nossas partidas que não estão lá, mesmo que sejam feias ou mal jogadas (escrevo isto para mim mesmo, também). Mesmo os grandes bancos de dados enxadrísticos têm falhas, como nomes e partidas erradas e até resultados torcidos.
Tudo isto é história de xadrez, e deveríamos colaborar com ela na medida da nossa possibilidade. O processo todo tem um valor prático muito grande, mas boa parte dos enxadristas ainda não o vê. Graças a uma boa base, o extinto 'Prêmio de Beleza' poderia agora voltar (esteve desaparecido por muito tempo, pela possibilidade de maracutaia), por exemplo. Quando Kasparov esteve no Brasil jogando um match contra nossa equipe olímpica de então, ficou contrariado porque um dos jogadores não constava no seu banco de dados. Os mais próximos de Bobby Fischer, isto até recentemente antes de sua morte, surpreendiam-se vendo-o estudar partidas de enxadristas desconhecidos, tipo ainda sem rating. Por que estes 'Monstros Sagrados' dão tanto valor a partidas de enxadristas de menor grandeza? Porque 'Todo Patureba tem seu Dia de Grande-Mestre'! O xadrez tem esta maravilha, que é permitir a um jogador mediano descobrir uma seqüência genial que um campeão não viu. Uma determinada 'novidade', já pode ter sido jogada na Rússia antiga. Ou ser trivial entre os Bantos da África. É o xadrez contra a vaidade, o xadrez e a humildade...
Mas o que podemos fazer para melhorar isto tudo? Acho que deveria ser obrigatório, ao menos nos torneios oficiais, a publicação imediata das partidas nos respectivos sites das federações, disponibilizando-as para baixá-las em formato PGN. Isto é gerar história e colaborar com o trabalho dos treinadores. Segundo um árbitro oficial me disse, é fácil fazer isto dentro de um torneio, usando-se um programa como o Chess Assistant, por exemplo.
Apelo aqui às federações que ainda não o fazem, para que adotem este procedimento.
Sobre o valor de estudar o passado enxadrístico, permiti-me publicar uma divertida miniatura de 3 minutos que joguei recentemente na Internet, com a seguinte charada: que GM do passado eu imitei grosseiramente, ao disputá-la? E a coluna deste mês, abre com um problema de mate em 3, de V. Zeltonosko - Smena 1994. Não vale usar programas para resolvê-lo.
Até a próxima!

1 RUY LOPEZ. def. BERLIN
Steinitz W. - Zukertort J.
1886.
1. e4 e5 2. ¤f3 ¤c6 3. ¥b5 ¤f6 4. O-O ¤xe4 5. ¦e1 ¤d6 6. ¤xe5 ¤xe5 7. ¦xe5 ¥e7 8. ¤c3 O-O 9. ¥d3 ¥f6 10. ¦e3 g6 11. b3 ¦e8 12. £f3 ¥g5 13. ¦xe8 ¤xe8 14. ¥b2 Steinitz vai começar a explorar o tema 'Grande Diagonal'.
14... c6 15. ¤e4 A ação é direta e denota grande vontade de vencer. Principalmente se levarmos em conta que até aqui Zukertort tinha ganho todas as partidas!
15... ¥e7 16. £e3 d5 17. £d4 f6 18. ¤g3 ¥e6 19. ¦e1 ¤g7 20. h4! Cumprindo 2 objetivos: deixa um escape para o rei e ajuda no ataque.
20... £d7 21. h5 ¥f7 22. hxg6 ¥xg6 23. £e3 ¢f7 24. £f4 ¦e8 25. ¦e3 ¤e6 26. £g4 ¤f8 27. ¤f5 ¥c5 28. ¤h6 ¢g7 29. ¤f5 ¢f7 30. ¤h6 ¢g7 31. ¤f5 ¢f7 32. ¤h6 ¢g7 33. ¤f5 ¢f7 34. ¤h6 ¢g7 35. ¥xg6 £xg4 36. ¤xg4 ¦xe3 37. fxe3 ¢xg6 38. ¤xf6 ¥b4 39. d3 ¤e6 40. ¢f2 h5 41. g4 h4 42. ¤h5 ¥d6 43. ¢g2 c5 44. ¥f6 ¤g5 45. ¥xg5 ¢xg5 46. ¢h3 ¥e5 47. ¤f4 d4 48. ¤e6 ¢f6 49. exd4 cxd4 50. ¤c5 ¢g5 51. ¤xb7 ¢f4 52. ¤a5 ¥f6 53. ¤c6 ¢e3 54. ¤xa7 ¢d2 55. ¤c6 ¢xc2 56. a4 ¢xd3 57. ¤b4 ¢e2 58. a5 ¥e7 59. ¤d5 ¢f3 60. ¤xe7 d3 61. ¤d5 E assim Steinitz começou a virar o match. Isso era no tempo da têmpera!
[1:0]
2 def. SICILIANA ATAQUE SOZIN
Ivanchuk, V - Karjakin, Sergey
18/ 3/2008.
1. e4 c5 2. ¤f3 d6 3. d4 cxd4 4. ¤xd4 ¤f6 5. ¤c3 a6 6. ¥c4 e6 7. ¥b3 b5 8. ¥g5 ¥e7 9. £f3 £c7 10. e5 ¥b7 11. exd6 ¥xd6 12. £e3 ¥c5 13. O-O-O ¤c6

14. £xe6+!? fxe6 15. ¤xe6
£e5?!
Um escorregão, já que as pretas deveriam ter devolvido
a dama para eliminar o cavalo de e6. Seriam melhores:
A) 15...Bd6?! B) 15...Bb6 C) 15...Qe7!
16. ¤xg7 ¢f8 17. ¤e6 ¢f7 18. ¦he1 £xe1? Isto é definitivamente errado e leva a uma vantagem decisiva para as brancas. Um dos dois seguintes métodos alternativos seriam melhores: 18...Bxf2 19.Rxe5 Nxe5 20.Nd8+ Kg6 21.Bxf6 Kxf6 22.Nxb7². Ou 18...Qxg5+ 19.Nxg5+ Kg6 20.Nce4 Be7 21.Nf7 e novamente o branco está melhor, jáque ele tem três peões e alguma pressão pela peça.
19. ¤xc5+ Este xeque intermediário é fatal para o negro.
19... ¢g6 20. ¦xe1 ¢xg5 21. ¤xb7 O branco tem três peões e uma forte iniciativa pela qualidade. O preto luta cruelmente mas sem qualquer esperança real de salvar a partida.
21... ¤d4 22. ¤d6 ¦hf8 23. f3 b4 24. ¤ce4 ¤xe4 25. ¦xe4 ¤xb3 26. axb3 a5 27. ¦g4 ¢f6 28. ¤e4 ¢e5 29. ¦h4 a4 30. bxa4 ¦xa4 31. ¤c5 ¦a1 32. ¢d2 ¦g8 33. g3 ¦f1 34. ¢e2 ¦b1 35. ¦xb4 ¢d5 36. ¤e4 ¢c6 37. h4 ¦h1 38. ¦c4 ¢b6 39. b4 ¦d8 40. ¦c5 ¦a8 41. c3 ¦a2 42. ¢e3 ¦e1 43. ¢f4 ¦f1 44. ¦h5 ¦a8 45. ¦h6 ¢b5 46. ¤d6 ¢a4 47. ¦xh7 ¢b3 48. ¦c7 ¦d8 49. ¤f5 [1:0]
3 def. HOLANDEZA.
Dorzhi - Oliveira P.
2/ 4/2008.
1. c4 f5 2. ¤c3 ¤f6 3. d4 e6 4. ¥g5 ¥e7 5. e3 O-O 6. ¤f3 d6 7. ¥d3 ¤c6 8. a3 e5 9. dxe5 dxe5 10. ¥e2 e4 11. ¤d4 ¤e5 12. O-O c6 13. £b3 ¢h8 14. ¦ad1 £e8 15. ¥xf6 ¦xf6 16. f4 exf3 17. ¤xf3 ¥d6 18. ¤d4 ¥c7 19. ¦de1 £g6 20. £c2 £h6 21. ¥f3 £xh2 22. ¢xh2 ¤xf3 23. ¢h1 ¦h6# [0:1] |